CVM e Relatórios ESG: Recuo Gera Crise de Transparência
09 de outubro de 2026
A recente mudança de postura da CVM em relação à obrigatoriedade dos relatórios de sustentabilidade gerou fortes críticas da Amec. A entidade alerta que a desregulamentação pode prejudicar a padronização de dados ESG e afastar investidores que buscam comparabilidade.
O Retrocesso da Transparência: O Impacto da Decisão da CVM nos Relatórios ESG
O mercado de capitais brasileiro vive um momento de tensão institucional após a decisão da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) de flexibilizar as regras sobre relatórios de sustentabilidade. Durante o ESG Day, evento promovido pelo Instituto de Auditoria Independente do Brasil (Ibracon), o presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Fábio Coelho, expressou profunda preocupação com o novo direcionamento da autarquia.
A medida, que torna voluntária a entrega de dados padronizados de sustentabilidade, é vista por especialistas como um balde de água fria nos avanços regulatórios que o Brasil vinha liderando na América Latina. O temor central é o retorno à fragmentação informacional, onde cada companhia decide o que e como divulgar, dificultando a análise de riscos por parte dos gestores de ativos.
A Perda de Comparabilidade e o Risco de Fragmentação
De acordo com a Amec, a principal consequência da decisão é o comprometimento da padronização. No universo dos investimentos, a capacidade de comparar dados entre concorrentes do mesmo setor é fundamental para a alocação de capital eficiente. Quando a regra deixa de ser mandatória, as empresas perdem o incentivo para seguir protocolos internacionais rigorosos, como os padrões IFRS de sustentabilidade.
Fábio Coelho classificou a avaliação da CVM como "equivocada". O argumento é que, ao permitir que as empresas optem pelo silêncio, o regulador cria um ambiente onde a transparência se torna um custo opcional, em vez de uma obrigação fiduciária. Para o investidor, isso se traduz em maior opacidade e, consequentemente, maior risco percebido.
O Dilema dos Custos vs. Competitividade Global
A justificativa para o recuo regulatório reside, em parte, no cenário macroeconômico brasileiro. Com juros elevados e margens pressionadas, o cumprimento de novas exigências de conformidade é visto por alguns setores como um fardo financeiro adicional. No entanto, Coelho rebate essa visão ao apontar que a falta de divulgação coloca as empresas brasileiras em desvantagem no cenário global.
Investidores institucionais estrangeiros, que hoje controlam trilhões de dólares sob mandatos ESG, exigem dados auditados e precisos. Se o Brasil se afasta da convergência global, corre o risco de sofrer uma fuga de capital para mercados que oferecem maior segurança jurídica e informativa sobre riscos climáticos e sociais.
A Resistência Interna e a Credibilidade do Mercado
O debate no Ibracon também destacou o papel da auditoria independente na validação dessas informações. Sem a obrigatoriedade, o ecossistema de asseguração perde força, o que pode abrir margem para práticas de greenwashing. Se não há um padrão exigido pelo regulador, as declarações de sustentabilidade tornam-se peças de marketing, e não documentos financeiros de alta confiabilidade.
O presidente da Amec enfatizou que, no momento atual da economia, a resistência de algumas companhias em adotar essas práticas é compreensível do ponto de vista operacional, mas desastrosa do ponto de vista estratégico. A fragmentação das informações é, em última análise, um retrocesso na governança corporativa brasileira, que havia conquistado terreno importante nos últimos anos.
No Kautt Radar, acreditamos que a transparência não é um custo, mas o alicerce da confiança que sustenta a liquidez e a perenidade do mercado brasileiro frente aos desafios globais.
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Fonte original: https://valor.globo.com/empresas/esg/noticia/2026/10/09/recuo-da-cvm-pode-fragmentar-informacao-de-sustentabilidade-diz-presidente-da-amec-em-evento-do-ibracon.ghtml. Artigo reescrito e analisado pelo sistema Kautt Radar.